Entrevista e fotos: Perácio de Melo/Grau10.net
Vale tudo no mundo dos concursos de beleza, até uma jovem de 26 anos disputar um título de “Senhora” Mundo. Quando nos lembramos, no entanto, que a russa vencedora do ano passado tinha apenas 18 anos, tudo parece fazer mais sentido... afinal, não existe idade certa para se casar.
Durante a realização do concurso Mister Brasil 2007, em Curitiba/PR, a gaúcha Maria Fernanda Schneider Schiavo foi oficialmente ‘coroada’ Mrs. Brasil e parte agora em fevereiro para a Rússia na disputa pelo título de ‘mais bela mulher casada do mundo’.

Jovem ela é, experiente também: em 2000, Maria Fernanda já foi nossa representante no “Miss Beleza Internacional” disputado no Japão, após emplacar um terceiro lugar no Miss Brasil daquele ano.
Mais loira e (ainda) mais esperta, formada em Jornalismo e cursando atualmente Administração de Empresas, a bela gaúcha pôde testar suas habilidades de “rainha da beleza” entre os candidatos ao título de mais belo do país: entre as convidadas do concurso, havia misses recém-eleitas e até uma tentadora boliviana, que funcionou como madrinha dos misters. Não teve pra ninguém: na bolsa de apostas, só deu Maria Fernanda, favorita de 10 entre 10 candidatos.
Como você se iniciou no mundo dos concursos de beleza?
Em 1999, eu acabei me inscrevendo no concurso Miss Ijuí, na minha cidade, a convite do Dilson Stein, que na época era responsável pela organização do Miss Ijuí.
Após ser convidada inúmeras vezes para participar do concurso Garota Verão, eu nunca aceitei, aí recebi uma ligação dele: “Fernanda, é a última oportunidade da tua vida, é a última vez que eu te convido, depois nunca mais vou te descolar alguma coisa. Tá acontecendo o Miss Ijuí, eu gostaria que você participasse, acho que você tem um perfil bem legal para esse tipo de coisa”.
Acabei conversando com a minha mãe e, escondida do meu pai, ela me inscreveu. Meu pai também não concordava com isso. Eu era filha única, imagina, ele achava que era exposição demais pra filhinha dele (risos).
Foi meio de repente. Comecei a ver as chamadas do Miss RS na TV, que estavam abertas as inscrições. Pensei: quem sabe? Foi uma coisa não planejada, aconteceu.
Uma semana depois, eu estava ganhando o Miss RS, essa foi a grande surpresa. Foi uma surpresa, porque eu fui pro Miss RS no intuito de participar mesmo, havia meninas lindíssimas concorrendo, eu não tinha a menor noção de como funcionava um concurso de miss. E pra minha surpresa, eu acabei ficando entre as finalistas e, depois, sendo a grande vencedora.
Havia alguma candidata famosa disputando o título contigo? O que te fez ganhar o concurso?
Ana Paula Quinot (vencedora do Beleza Brasil e representante brasileira no Miss Terra 2006), que tinha sido Garota Verão há pouco tempo, foi extremamente bem preparada para o concurso.
Acho que o que fez o grande diferencial na noite do concurso foi que, como eu trabalhei em rádio durante muitos anos, a minha família tem uma emissora de rádio no interior, eu não tinha problema nenhum nessa questão de falar em microfone, falar em público; esse pavor que cerca as meninas nessa hora, eu não tinha, então foi mais ou menos aí que eu me segurei. Eu disse: ‘não, isso eu sei. Se for para ganhar esse concurso...’ eu sabia das minhas limitações em termos de produção. Foi nisso que eu me segurei. “Isso eu sei, muito”. Vamos ver o que acontece e, no fim, deu certo.

Você não ficou com medo de cair na vaidade e ser taxada de fútil por participar desse tipo de evento?
Não, porque eu sempre aproveitei isso e eu acho isso hoje, digo isso pra qualquer menina: o bom de ser uma mulher bonita é que as pessoas param pra te ouvir. E o mais importante é que, quando elas te ouvirem, você ter alguma coisa a dizer para elas. Esse sempre foi o meu princípio.
Eu tomei como exemplo a minha antecessora, a Renata (Fan, Miss RS e Miss Brasil 1999), que é uma mulher muito bonita e também muito inteligente. E sempre soube colocar isso para as pessoas, sem ser de uma maneira agressiva.
Isso eu acho que eu sempre procurei fazer, eu me mostrei desde o Miss RS, no decorrer do concurso, apesar de eu ser uma menina lá do interior, de nunca ter participado de um concurso de beleza, que eu tinha um recado pra dar e acho que foi bacana, as pessoas souberam me ouvir e souberam me respeitar por isso.
Quando você foi para o concurso nacional, você era uma gaúcha lutando para suceder uma outra gaúcha, Renata Fan, que era a então Miss Brasil. Como ficou a sua cabeça naquele momento?
Quando eu fui para o Miss Brasil, foi totalmente diferente e a emoção foi diferente de quando eu fui para o Miss RS. Como eu te falei, no Miss RS eu não esperava que o resultado fosse o que aconteceu. Só que, no Miss Brasil, a gente tem aquele estigma de gaúcha, a gaúcha sempre emplaca. Então eu já fui sabendo que, obrigatoriamente, eu teria que ter um resultado positivo. Foi uma responsabilidade maior, porém mais tranqüila. A gente já sabia que entre as cinco finalistas eu ficaria. Já é previsível. A não ser que aconteça alguma coisa de anormal, mas já é previsível que as gaúchas fiquem entre as cinco finalistas.
Eu acabei ficando em terceiro lugar, não ganhei em 2000, mas quando me perguntaram na entrevista: ‘você sendo gaúcha, o que você pensa em ter ficado em terceiro lugar?’. Eu me lembro que eu comentei o seguinte: aquele era o meu terceiro concurso de beleza e ter ido para o Miss Brasil como terceiro concurso, ter ficado em terceiro lugar e ter a oportunidade de ir para Tóquio, que era um lugar que, talvez se não fosse por vias do concurso, até hoje eu não conheceria, eu acho que é maravilhoso. Foi muito legal, foi uma etapa da minha vida que eu curti, tive a oportunidade, em função dessa classificação que eu obtive, de conhecer um lugar espetacular. Segui minha vida, foi muito bacana, foi uma experiência na minha vida, alegrias e frustrações foram todas válidas.

Como foi a viagem ao Japão para o Miss Beleza Internacional?
Viajei sozinha, foi muito complicado, eu tinha 18 anos, já tinha ido para Nova Iorque, Milão e Espanha, trabalhando como modelo. Mas era diferente, porque nesses lugares eu sempre tive o respaldo de agências, de empresas para as quais eu estava trabalhando, eu era recebida e muito bem amparada. Senti muita falta de alguém ao meu lado no Japão.
Vendo candidatas do México e Venezuela, por exemplo, que estavam com os pais, produção, cabeleireiros, manicure, ex-misses do país estavam junto, e eu estava sozinha. Foi muito complicado ter ficado 20 dias longe, me comunicando em Espanhol com as meninas latino-americanas, com dificuldades em Inglês.
Eu não fiz uma participação legal no concurso, eu não estava bem. Até porque eu já estava na época com outros interesses, eu estava com casamento marcado, tava dando um outro segmento na minha vida.
Eu não tive apoio nesse concurso e é uma coisa que hoje eu ainda me revolto em função de que, talvez se eu tivesse tido o amparo que as meninas que foram para o Miss Universo e para o Miss Mundo tiveram, a gente poderia ter tido um resultado bem melhor.
Mas se divertiu pacas...
Me diverti muito. No início, a gente chorava de medo. Foi uma semana de choro porque ninguém se conhecia, ninguém falava a língua de ninguém. No final, a gente chorava porque ninguém queria ir embora. A gente acabou se apegando, foi muito gostoso, eu tenho amigas até hoje que a gente troca e-mails, é bem bacana.
Logo depois, você se casou...
Quando eu voltei do Japão, no início de novembro, e em dezembro eu me casei. Foi uma história meio de contos de fada, a menina que saiu do interior, ganhou um concurso de miss, depois casa com todas as pompas que teve direito e em seguida tive meu filho.
Como é essa história de ser mãe?
Meu filho se chama João Pedro, tem cinco anos. Ser mãe é a coisa mais maravilhosa que pode existir na vida de uma mulher. Quando penso na minha vida antes dele, vejo que a minha vida não tinha a menor graça. Hoje ela é simplesmente perfeita. Foi o que me completou, acho que hoje eu sou uma mulher completamente realizada. Mas não é o momento ainda de ter mais (filhos), principalmente agora (risos).
Tive um casamento fracassado, isso é uma coisa complicada, você tenta construir o seu castelo e vê que ele desaba, é uma coisa muito difícil de lidar. Mas, graças a Deus, disso tudo restou uma coisa maravilhosa, que foi o João. E que a cada dia faz com que eu babe mais por ele, me apaixone mais por ele e queira mais estar perto dele.
O que você espera para o futuro dele?
Que ele seja feliz, da maneira que ele escolher, naquilo que ele escolher, do jeito que ele escolher.
Procuro passar para ele princípios que eu tive da minha família, que ele tenha uma boa conduta, que tenha caráter, que ele seja um homem íntegro, independente das escolhas que ele fizer.
No que você se vê nele?
O gênio, total (risos). Ele é a cara do pai dele, fisicamente ele não tem nada meu, a não ser a boca e o queixo que é parecido.
O jeito de olhar, o jeito de se comportar, meio revoltadinho, meio bravinho, sem paciência, sou eu. Principalmente o jeito de olhar, quando ele está insatisfeito, ele dá uma apertadinha no olho, olha de cantinho.
Às vezes eu vou repreendê-lo, em função de alguma coisa que ele faça, eu me desarmo em função de eu estar me vendo, então é muito bacana, eu conheço de olhar.

O que você está fazendo atualmente?
Hoje estou em casa, cuidando do João Pedro. Tive uma época muito intensa na minha vida, que eu estava trabalhando como modelo, isso de um ano para cá reduziu bastante o ritmo, eu fiquei deslocada em função de idade. Eu estava com 24 para 25 anos, eu não conseguia pegar um tipo de campanha, já não servia mais para filha, mas também não servia para mãe e não podia fazer campanha de cerveja. Fiquei fora do mercado por um ano mais ou menos.
Em 2006, recebi alguns convites bem bacanas, fiz umas quatro campanhas boas, inclusive uma que está em San Diego, na Califórnia, uma divulgação de uma marca brasileira.
Fui gerente de banco, já trabalhei em rádio, escrevi coluna em jornal. Hoje acabei optando, depois de trabalhar em banco em ritmo muito acelerado, ficar em casa com o João, eu senti falta disso.
E nesse curto espaço de tempo que eu fiquei em casa, surgiu essa questão do convite para ir a Moscou e agora estou me dedicando exclusivamente a isso.
Como está a sua preparação para o concurso?
Eu não consegui ainda patrocínio, estou tentando em órgãos do governo, pedindo a alguns amigos. É muito difícil, é uma coisa que hoje eu não tenho condições de bancar sozinha, em função de ter outras prioridades, da minha casa, do meu filho.
Eu ainda estou correndo atrás de patrocínio, a gente está vendo vestuário, até dinheiro mesmo, porque é preciso ter uma reserva pra levar pra lá.
Está certo que eu vou, isso a gente já acertou. Embarco em 17 de fevereiro para Moscou e a final do concurso é dia 08 de março lá. Estou com uma expectativa bem legal, acho que de repente pode dar certo.

A experiência anterior, de disputar um concurso internacional no Japão, vai ser decisiva nessa hora?
Não só a experiência do Japão, acho que a minha experiência de vida, desses últimos sete anos. Tenho observado muito, freqüentado muito esse mundo de concursos de miss, (você) aprende muita coisa e aprende a relaxar, que é uma coisa que as meninas não sabem fazer quando elas estão indo pro concurso.
Então eu estou indo tranqüila, independente do resultado, a minha obrigação com o pessoal da coordenação é representar bem o Brasil e fazer um bom trabalho e chegar aqui e dizer: bom, não deu, dever cumprido, que no ano que vem uma próxima candidata vá mais preparada do que eu e tenha condições de ganhar. Se trouxer o título, ótimo.
Como é ser uma mulher independente e receber orientações da organização do concurso, já que, como miss, você deve seguir um código de conduta, um certo tipo de comportamento?
Tranqüilo, ontem eu comentei com o Henrique (Fontes, diretor executivo do Miss Brasil Mundo) e disse ‘olha, eu estou à disposição de vocês. Eu quero que vocês façam comigo o trabalho que foi feito com a Jane (Borges, atual Miss Brasil Mundo), cujo resultado foi espetacular pro Brasil’.
Eu conheço esse universo em partes, eles convivem diretamente com ele. A grande virtude de uma pessoa está em ela saber aprender, chegar e reconhecer as limitações que ela tem e dizer ‘olha, senta aqui e me diz como é que funciona’.
Eles me dão total liberdade pra escolher. Me perguntaram: ‘o que é que você quer de traje típico?’. Eu digo ‘escolhe’. E eles: ‘como assim, escolhe?’. E eu: ‘o que vocês acham?’.
Nesse momento, eu recolho um pouco essa coisa de o que eu sei, o que eu já vi, e deixo um pouco nas mãos deles. Afinal de contas, se eu tivesse um amplo conhecimento, eu teria ganho o Miss Internacional no Japão. Acho que eles têm total capacidade de me orientar e juntos a gente conseguir chegar num resultado melhor.

Qual foi a melhor e a pior coisa que você fez como miss?
A melhor coisa que eu fiz e que eu tive a oportunidade na época foi no meu aniversário de 19 anos, em função dos cachês que eu recebia, estava ganhando muito bem naquela época, uma festa de aniversário, tipo a que eu tive nos meus 15 anos, foi mais ou menos no mesmo padrão.
Não me lembro quantas toneladas de alimentos foram arrecadadas. Ao invés de presente, eu pedi nos convites 10 quilos de alimentos por pessoa, cada casal levava 20.
Eu acabei entregando pro pessoal que trabalha com um centro espírita cardecista lá e eles conseguiram distribuir em 50 famílias. De tudo o que eu vi, acho que isso eu nunca vou me esquecer. Eu nunca vou esquecer a carta que eu recebi deles, me prestando contas, sendo que eu pedi pra que isso não fosse feito. Dêem o alimento, distribuam, mas em hipótese alguma digam que fui eu. Mas eles fizeram isso e acabaram me agradecendo, e foi um dos melhores momentos.
O pior de tudo foi o seguinte: eu estava convidada para uma Copa Erickson, lá em Porto Alegre, no Grêmio Náutico União, eu ainda era Miss RS. Me colocaram no camarote sentada, sentei do lado de uma pessoa, fiquei duas horas sentada.
Daqui a pouco chegou um menino da RBS, dizendo ‘quero que você faça um sorteio de um celular lá embaixo, na quadra, você e o Szafir’. Que Szafir? ‘O Luciano Szafir. Ele tá do teu lado’. Fiquei duas horas do lado e não vi ele.
E é ele que usa óculos, né?
É, tudo bem... (risos). Acho que essa foi a minha pior mancada. Essa foi a que eu me lembro, a pior de todas.
Fale um pouco sobre sua rotina diária, seus hobbies...
Eu sou leonina, gosto de estar na minha casa, de estar com o meu filho, de fazer um jantarzinho para alguns amigos, de receber as pessoas. Gosto de ficar sozinha também, ter a oportunidade de organizar essas idéias, planejar o que vou fazer. Viajar, ouvir música.
Quem são os seus prediletos em música?
Eu sou totalmente eclética, acho que cada música na minha vida se adapta a um determinado momento e a um determinado tipo de emoção que eu quero ter.
Eu gosto de ouvir Alcione, eu gosto de ouvir Wando, por que não, quando está na fossa?
Adoro Evanescence, gosto de Pitty, depende.
Música preferida...
“Detalhes”, do Erasmo Carlos, acho que é a música da minha vida, que conta um pouquinho de muitas histórias.
E seu filme predileto?
“A Vida é Bela”. A maneira como ele tenta mostrar um outro universo, no meio daquilo tudo, pro filho, foi o que mais me tocou, em função de hoje ter um filho e de muitas vezes a gente quer proteger... muitas vezes eu me deparei chorando dentro de casa e o meu filho perguntado "mamãe, o que é que foi?" e eu, sofrendo por algum problema, dizer "a mamãe tá chorando de felicidade, porque você existe". Então ele disse: “então a gente chora de felicidade também?”. E não era.

Qual é a importância da Internet para os concursos de beleza?
Eu acho tudo. Eu me lembro que, em 2000, a gente não tinha isso. Hoje os sites de concursos de miss, os fóruns, dão a oportunidade das pessoas de interagir dentro desse meio, que há um tempo atrás era fechado para coordenadores, pras pessoas que realmente conheciam isso aí.
Então é uma maneira de divulgar. A Internet é hoje uma mídia tão importante quanto TV e rádio, ela ocupa um espaço muito grande dentro dos meios de comunicação, é respeitada e eu acho que, dentro desse nosso universo de concursos de beleza, foi a alavanca que faltava para a divulgação.
Então essa interação das pessoas junto com os coordenadores, alguém quer saber alguma coisa, vou eu, ex-miss, deixa que eu te respondo. Isso ficou muito bacana. Apesar do conflito que gera, as pessoas acham ainda que as coisas acontecem de uma maneira e é diferente.
Eu acompanho, então ainda existe uma posição meio errônea das coisas. Mas acho isso tudo show de bola, nota 10. Espero que cada vez mais cresça e que, cada vez mais, seja divulgado esse tipo de trabalho.
Se a Maria Fernanda tivesse nascido homem, quem ela seria?
Se eu tivesse nascido homem, nossa... agora vou brincar contigo, me diz o nome de uma travesti famosa (risos). Se eu tivesse nascido homem, eu seria mulher, não tem jeito.
De qualquer maneira, sei lá, Roberta Close, Bianca Soares, mas acho que seria mais calma... (risos)
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