Visitante assíduo do Grau10.net, o internauta Umberto Carlos Martins nos encaminhou um e-mail no início do ano querendo saber detalhes sobre as causas do falecimento da Miss Brasil 1983, a mineira Marisa Fully Coelho.

Para contar essa história, recorremos ao maior especialista no assunto "misses" em nosso país: o jornalista Roberto Macêdo, de Salvador, Bahia, que nos brinda com um artigo muito especial.


Marisa, ainda candidata ao Miss Brasil 1983

Uma estrela foi
para o céu em 1998

Roberto Macêdo

A minha relação com a morte de Marisa Fully Coelho é muito estranha. É uma incógnita. Um misto de tristeza, coincidência, mistério e estupefação. Vejamos...

***

Em novembro de 1998, fui convidado pelo meu amigo Carlos Borges para ser jurado do Miss Brasil-USA, a ser realizado em Miami Beach, no legendário Hotel Fontainebleau, palco de tantos concursos e de tantas histórias com as misses.

O convite era ainda mais interessante porque seriam homenageadas as nossas duas Misses Universo: Ieda Vargas, pelos seus 35 anos de eleita, e Martha Vasconcellos, pelos seus 30 anos de reinado.

Ficamos hospedados juntos durante uma semana, cumprindo a vasta programação social, que incluía festas, programas de televisão e festivais gastronômicos.

Na madrugada do dia 21 de novembro, estávamos na calçada da Lincoln Road, jantando num elegante restaurante. Na mesa, além das nossas duas mais importantes misses internacionais, a cantora Wanderléa, que era a estrela do show principal do Miss Brasil-USA.

A conversa amena girava principalmente sobre as experiências de Martha e Ieda por todo o planeta, quando eu perguntei: "Ieda, por favor, tire uma dúvida mundial: seu sobrenome é Brito ou Brutto?".

E Ieda, com o seu humor característico, fez um escândalo respondendo: "Brutto!!! Você quer anular a ascendência italiana de mamãe?".

Todos rimos e eu disse que, na Internet, havia aquela dúvida -  a partir daquele momento, não existiria mais!

Ieda então me perguntou:"Roberto, alguma Miss Brasil já morreu?".

Respondi também com humor, utilizando um ditado popular da Bahia: " Não Ieda, vocês todas ficarão para semente! Imagine que até dona Iolanda continua viva, com quase 90 anos, quanto mais vocês outras, com os progressos da medicina!" (falei isso principalmente porque eu tinha feito uma matéria nacional para a TV Manchete entrevistando Iolanda Pereira em 1992).


Roberto Macêdo entre nossas misses Universo 1968 e 1963 e,
no estúdio de TV em Miami, com o casal Leila Cordeiro e Eliakin Araújo

Os concursos de beleza sempre estiveram presentes na família Fully Coelho, de Manhumirim, Minas Gerais. Patrícia foi a candidata da cidade ao título estadual em 1978, sem se classificar. Marisa lhe sucedeu no ano seguinte, sem sucesso. Quatro anos depois, a história é outra: Marisa tenta ser Miss Minas Gerais mais uma vez. E assim se torna a grande  vitoriosa entre 37 candidatas numa noite fria de maio, no ginásio poliesportivo da Associação Atlética Banco do Brasil, em Belo Horizonte. Como vice, ficou a Miss Poços de Caldas, Luiza Aparecida Miglioranze, que viria a ser a Miss Ceará 1985.

No Miss Brasil, Mariza não estava entre as grandes favoritas. No desfile para a escolha das semifinalistas, ela foi a terceira colocada, com 94 pontos. A primeira foi Denise Demirdjian, Miss Mato Grosso do Sul, que teve 98 pontos.

Anunciadas as 12 escolhidas pelo júri preliminar, veio a primeira prova, a de simpatia. Venceu Denise e Marisa ficou em segundo lugar. Na prova seguinte, a de plástica, mais uma vez a sul-mato-grossense venceu, com 98 pontos, e Marisa ficou em quinto, com 83 pontos. Com esses dois desfiles, Denise estava em primeiro e Marisa em terceiro. A gaúcha Rejane Heiden era a segunda colocada.

O último desfile foi em traje de noite. Marisa ficou em sétimo lugar, com 82 pontos, e Débora Proença de Moura, Miss Fernando de Noronha, foi a vencedora com um vestido do figurinista Markito, uma das primeira vítimas da Aids no país. Débora cravou 99 pontos.

Somadas todas as notas, Mato Grosso do Sul estava em primeiro (287 pontos), Rio Grande do Sul em segundo (274), Fernando de Noronha em terceiro (272), Minas em quarto (258), e um triplo empate na quinta posição: Bahia, Santa Catarina e São Paulo, com 254 pontos cada uma. Voto nominal e mais um empate. Sílvio Santos decide que serão seis finalistas. Saiu apenas a baiana.

Na votação final, vence Marisa Fully Coelho com 96 pontos, derrotando a arquifavorita Denise Demirdjian com a diferença de apenas um ponto. Marisa teve somente duas notas 10. Denise teve seis notas 10. Mas uma nota 1 dada à sul-mato-grossense determinou a sua derrota.

Outras finalistas tiveram notas baixas. A gaúcha teve duas notas 4, a noronhense teve duas notas 2, a catarinense teve uma nota 1 e a paulista teve uma nota 1 e uma nota 3.

Jornalistas publicaram que houve um complô para favorecer a candidata gaúcha, que tinha entre os jurados as suas amigas Xuxa e Adriana Alves de Oliveira (Miss Brasil 1981), ambas também gaúchas e que já tinham feito trabalhos com Rejane Heiden. Segundo as versões publicadas, jurados do SBT (Jassa, Joyce e Luciano Callegari) e as gaúchas foram os responsáveis pelas notas baixas dadas às finalistas.

O objetivo, diziam, seria evitar a eleição de uma miss que não seguisse a cartilha de Marlene Matos, a coordenadora do SBT, como tinha ocorrido um ano antes com a paraense Celice Pinto Marques da Silva. Das seis finalistas, os jurados que conheciam o plano deram notas baixas para Denise, a noronhense, a catarinense e a paulista – porque o concurso era em São Paulo. Miss Minas não era ameaça e a gaúcha seria a protegida. O tiro saiu pela culatra.

Como explicar que uma miss vença todas as etapas do maior concurso nacional e, no desfile final, ela receba uma nota 1? Se o regulamento estipulasse cinco como  a nota mínima nessa fase, a eleita teria sido outra. Acredito que foi com esse resultado que o Miss Brasil no SBT começou a morrer...


Eleita Miss Brasil


O Top 3 do Miss Brasil 1983


Após a vitória, com a mãe, a irmã, o cunhado e o sobrinho

Marisa disputou o Miss América do Sul, em Lima, no Peru, e ficou em segundo lugar. No Miss Universo, em Saint Louis, EUA, não se destacou.

De volta ao país, começou a fazer aparições na programação do SBT e trabalhou em uma novela, Vida Roubada, realizando o sonho de ser atriz. Quem conviveu com ela, diz que Marisa era uma pessoa meiga, companheira e feliz.


Ao lado da Miss Portugal no Miss Universo


Apesar de não chegar às semifinais, Marisa foi uma das 12 mais votadas em traje de banho


De volta ao Brasil, tentou a carreira de atriz

Depois de passar o título de Miss Brasil, Marisa voltou à sua vida normal. Casou com Pedro Sabino, filho do escritor Fernando Sabino, com quem teve a filha Paula. Num segundo casamento, com o compositor Carlos Colla, teve Laura.

Na manhã do domingo, dia 22 de novembro de 1998, Marisa dirigia uma caminhonete S-10 na BR 232. Ia de Manhumirim para Manhuaçu, onde estava morando. Num violento acidente provocado por um caminhão e envolvendo o carro de Marisa e mais um Kadet, a Miss Brasil 1983 morreu aos 36 anos de idade. As filhas ficaram gravemente feridas, mas sobreviveram. Marisa foi velada numa escola pública e enterrada na sua amada Manhumirim.

O irônico é que, duas semanas antes, no enterro do amigo Nicolau Neto, o então coordenador do Miss Minas Gerais, Marisa deu sua última entrevista numa televisão, para o programa Point, da TV Catuaí: “Eu só espero que Deus me deixe aqui quietinha porque ainda tenho muito o que fazer”.

***

Se Ieda Vargas tivesse feito a pergunta um dia depois, a resposta teria sido outra...

Fotos e reproduções: arquivo pessoal de Roberto Macêdo (revista Manchete e jornais 'O Estado de Minas', 'Folha de S. Paulo', 'Tribuna do Leste', 'O Catuaí' e 'Correio da Bahia'.

Para acompanhar o trabalho do jornalista Roberto Macêdo, acesse regularmente o site Miss News.